quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Farsas

  Eu fugi da realidade. Escapei de mim mesmo quando não mais pude me suportar.
 Estava sozinho com as pessoas e sem elas. Estava sozinho mesmo quando estava comigo, e isto não é lá cousa de gente sã aguentar. Nunca fui companhia que se prezasse.
 Em castelos de areia que construí alegremente, depositei minha inocência quase tão pura quanto o mais suave dos silêncios. Com o mesmo esmero tornei minha obra prima uma piada de mal-gosto. Divirto-me rindo da infelicidade que fantasiei, e desgraçado que sou, é muito possível que seja mais feliz desta maneira.
 O quarto se fechou e o mundo é uma farsa: uma ilusão insossa, inodora, incolor e indigesta.
 O travesseiro confidente não é mais o fim do dia. É quando adormeço que acordo, quando choro sinto-me pleno, e para viver me mato aos poucos.
 É o cigarro aceso no cinzeiro a minha tristeza reprimida. O trago não me agrada os lábios, mas eu o mantenho ali, como se sua chama pudesse confundir os olhos do espectador e projetar alguma luz sobre mim.